Quando se fala de quem mora no interior, tem-se a impressão que tudo é pacato, sossegadão e que todo mundo vive na madorra com um gravetozinho entre os dentes vendo o tempo passar, bem, isto realmente acontece nos livros, nos filmes e nos causos dos contadores de histórias que as vezes pincelam a realidade obscurecendo fatos peculiares comum a todos os lugares, rotulam com eufemismo a dureza de ser interiorano e isto nós sabemos que é atemporal, independente do periodo em que se vive, a essência do ser humano é uma só, tentar viver de modo intenso o mais intensamente possivel, não basta ter de lidar com o dia a dia, as vezes é preciso compartilhar com outros as migalhas das experiências e perceber que eles também não sabem lidar com as pressões do cotidiano e assim vão vivendo e aparentemente aprendendo a contornar as situações mais inusitadas, vamos tentarar reaver algumas dessas perolas. Vamos lá? Não imagine o leitor que sou um mero expectador vislumbrado com mesmices do interiorano, aliás, vamos chamá-lo de Ranulfo, isto mesmo Ranulfo tem nome e identidade e o que aconteceu com ele poderia ter acontecido com qualquer um de nós, o fato só não passou despercebido por que eu tive o privilégio de conhecer um parente próximo dele o.... bem vamos deixar este parente no anonimato e voltar no tempo, bem no periodo em que tudo aconteceu.
Já passava das nove horas e o ônibus nada de aparecer, de vez em quando Ranulfo esticava o pescoço deixando transparecer uma impaciência, também é no que dá ficar um pouco mais tarde só para agradar o patrão, e o pior, é saber que não vai ser remunerado, ele e a sua língua grande, que sempre cresce mais um pouco para falar "tudo bem, pode deixar" e neste momento ser incapaz de dizer não quando alguém diz " muito obrigado Ranulfo, eu sabia que podia contar com você" hum! Contar, contar com ele, dá raiva só de pensar, qualquer pessoa sensata saíria tranquilamente dessas situações, mas não o Ranulfo, ele era diferente, era pau prá toda obra e mesmo resmungando bem no íntimo para ninguém ouvir, lá ia ele com um sorriso nos lábios e um certo ar de resignação mas, quem percebia? Amargou quase duas horas de espera até que o ônibus apareceu, ainda bem que não tinha muito passageiros, pois quase todo dia ele ia em pé, deslizando prá lá prá cá no interior do coletivo supondo que poderia machucar alguém, já sabia de cor e salteado o trajeto, mesmo que fecha-se os olhos saberia dizer em que trecho estava e esta sua capacidade era o que aliviava a tensão da viagem tanto da ida quanto a da volta e era isso que ele fazia fechava os olhos e deixava a imaginar criar corpo, esta tática era ótima enquanto ele confirmava na mente o que estava ao seu redor de repente o ônibus freava bem pert
o da sua parada, respirava aliviado e caminhava a passos lentos até a quadra onde ficava sua casa, não era uma senhora de uma casa, mas erao local onde ele podia se sentir grande, disposto e dono de si, neste horário dificilmente iria encontrar os vizinhos acordados, ainda bem, pois não queria se deter com assuntos que as vezes não lhe dizia respeito mas que o seu ouvido ficava atento e quando se apercebia já estava na hora de dormir e aquele vizinho que com certeza ficaria em casa o dia todo nem se abalava, ainda dizia "- O papo tá bom, mas eu vou ter que dormir" Como se ele estivesse atrapalhando algo e não o contrário, olhou sorrateiramente como realmente não tinha ninguém por perto entrou imediatamente em casa
Já não aguentava mais ser tão solidário, ser tão submisso, por mais que tentasse ser diferente não conseguia mudar o seu estilo, ficava a noite toda remoendo o caso e só aliviava a mente quando de modo mais servil possivel rastejava-se aos pés do seu opositor